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Sobre a entrevista de Jimmy Wales, Wikipedia e expectativas


[22/01/2009 às 10:09 | SEM COMENTÁRIOS ]

A entrevista/debate com Jimmy Wales, criador da Wikipédia, foi ao ar dia 19/01 no programa Roda Viva da TV Cultura. Estou disponibilizando na íntegra a entrevista que foi licenciada por Creative Commons, uma ótima iniciativa diga-se de passagem. Os entrevistadores foram Sergio Amadeu, sociólogo e professor de pós-graduação em comunicação e tecnologia da Faculdade Cásper Líbero, Carlos Eduardo Lins da Silva, ombudsman da Folha de S. Paulo, Otávio Dias, editor do caderno Link do jornal O Estado de S. Paulo e Ricardo Mucci que é coordenador de mídias da TV Cultura.


Esse vídeo também se encontra disponível no site do Campus Party Brasil.

De um modo geral gostei muito da entrevista. Até então só havia lido coisas escritas por Jimmy Wales e visto pequenas entrevistas nas quais ele respondia as mesmas questões de sempre. Admiro a calma com a qual ele respondeu todas as perguntas, bem como é realista com a situação da Wikipedia. Coisas interessantes surgiram no programa, vou comentar algumas aqui. Mas antes, cabe fazer umas pequenas ressalvas.

Como telespectadora do Roda Viva acho que este em especial teve duas questões pontuais de descuido: o vídeo de introdução, que ficou didático, mas parece um pouco determinista (além disso WikimÉdia Brasil, ninguém merece!) e as palavras de apresentação e perguntas de Lillian Witte Fibe. O programador Ward Cunningham ficaria chateado se ouvisse a apresentadora tirar-lhe totalmente o crédito pela invenção da tecnologia wiki em 1995 e transferir para Jimmy Wales pela criação da Wikipédia em 2001. Certo que a Wikipedia seja a grande responsável por popularizar os sistemas wiki, mas estes são bem anteriores a enciclopédia livre (além disso, preciso defender a classe de programadores!). Talvez eu esteja sendo um crítica demais com detalhes. Mas creio que seja por essas e outras que equívocos se perpetuam (como as pessoas que até hoje chamam o gabinete de computadores de CPU ou pior, de winchester, como meu pai chama até hoje hahaha). Um dos papéis da televisão, creio eu, é levar informação o mais correta possível, pois ainda é a formadora de opinião e fonte de conhecimento de muita gente. Quando se trata destes “assuntos nebulosos” como o caso da Wikipedia que é divinizada ou diabolizada1 pelo senso comum, sempre nos extremos, precisa-se de cuidado.

Em contrapartida acho admirável o empenho em integrar mídias sociais na transmissão e cobertura do programa. Por exemplo a participação dos twitteiros que cobriram muito bem a entrevista, Pedro Markun (@markun), Barbara Dieu (@bdieu) e Pedro Valente (@pedrovalente). Também a ótima  Transmissão Experimental Participativa do Roda Viva feita através do canal web com espaço para sala de bate papo, fotos, twitter e transmissão dos bastidores, da entrevista e da tradução.

Quanto a entrevista em si alguns pontos que eu gostaria de destacar. Jimmy Wales mostra-se esperançoso com a aproximação da política e as tecnologias de comunicação e informação (Caso da Campanha de Obama). Questiona novos modos de unir pessoas para construir processos produtivos. Fala sobre a questão da economia e da participação onde as linhas de poder mudam e também da influência da filosofia de software livre na construção da Wikipedia. Fala sobre um projeto da Wikimedia, dessa vez com fins lucrativos, de desenvolver um buscador a altura de concorrer com o gigante Google.

Ponto interessante e que eu aguardava ser abordado é a comunidade acadêmica e a wikipédia. As pessoas ainda não tem muita noção de como funciona o ambiente. Ouvem falar que qualquer um pode inserir conteúdo e acham que é só. Não, não é só isso. Existe uma estrutura de auto-organização mesclada com relações hierárquicas, o que não existe é um “comitê de arbitragem” selecionado pela Wikimedia, como disse a apresentadora.

Penso que muitas vezes as pessoas projetam muitas expectativas utópicas nos processos da web. Por que tudo tem que ser radicalmente diferente do offline? Ora, se existe inserção de conteúdo fora do contexto/vandalismo/coisas do gênero em livros de visita de museus, em banheiros de instituições de ensino (conheça o banheiro do 1° andar da FABICO hahaha), na Bienal de São Paulo, em livros da biblioteca, por que não existiria em processos abertos na web? A questão é o desenvolvimento de um processo para lidar com isso. E isso não pode ser um processo apenas informático. A informática não é um fim, mas sim o meio. As pessoas fazem a web, produzem o conteúdo, definem o que prevalece tanto nas ferramentas como nos conteúdos. Isso pode ser muito bem visto, por exemplo, no caso do Twitter que é um grande sucesso e do Pownce que acabou de fechar suas portas. Assim como pode ser visto na Wikipedia. Alô! A web não é um ambiente utópico de fantasia onde tudo é belo, que irá resolver os problemas do mundo e as pessoas agem de maneira totalmente contrária ao que estão acostumadas no offline. Inclusive enquanto finalizava esse post recebi no twitter um retwitting do Eduardo com o seguinte e cinco minutos depois, pena que não consegui um screenshot!

Voltando para a entrevista, achei interessante o argumento para a não utilização de um sistema de reputação na Wikipedia, como o que acontece no Slashdot, por exemplo. De fato, uma pessoa pode ter um grande conhecimento em certas áreas, mas certamente não em todas. Não se pode atribuir reputação a uma pessoa de maneira mecânica devido sua quantidade de intervenções e as classificações positivas que recebe. Pelo menos não na Wikipedia. Assim, o “mecanismo de reputação” é representado por todas as pessoas que colaboram naquele conteúdo, que irão atribuir ou não confiabilidade àquele colaborador. Portanto não, não há uma mecanismo formal de reputação, mas tudo acaba funcionando. A chamada meritocracia predomina, mas é claro que o ambiente não está livre dos aristocratas e dos jogos de interesse, escreverei com mais calma sobre isso qualquer dia.

No mais rolou até a pergunta default: “a internet vai substituir os outros meios de comunicação?”.

Valeu a pena e eu recomendo a todos que assistam. Ouvindo as palavras dele talvez fique mais fácil não tomar uma visão maniqueísta em relação a Wikipedia, mas sim perceber o que de fato ela é e o que ainda pode ser, afinal é um processo em construção diária.

  1. Como diria Paulo Freire sobre a tecnologia
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